Vamos refletir sobre este versículo nos baseando na obra “Elucidações Evangélicas” de Antônio Luiz Sayão.

Este versículo foi retirado da passagem onde Jesus fora convidado para jantar na casa do fariseu e Maria Madalena banha os pés de Jesus com bálsamo e lágrimas.

    O fato referido nesta passagem constitui um exemplo da influência que o arrependimento tem sobre os destinos do homem. Por isso é que nos é aconselhado nos arrepender de nossos pecados. A palavra arrepender significa mudar de rumo, converter-se. Maria, a pecadora de Magdala, obteve o perdão de suas culpas, não por haver banhado os pés de Jesus, mas porque esse ato foi a consequência do pesar profundo que lhe causavam suas faltas, do arrependimento sincero de que se achava possuída e por serem imensas sua fé e sua esperança naquele diante do qual se curvava.

    Mulher de costumes livres, vaidosa da sua beleza, não hesitou, uma vez tocada de viva mágoa dos seus erros, em se humilhar, enxugando com os cabelos aqueles pés que o seu arrependimento inundava de lágrimas, em sacrificar a esse arrependimento os perfumes que serviam para mais sedutora torná-la e que se santificaram ao contato com o Mestre.

    Duas circunstâncias devemos assinalar, no caso de Maria Madalena, porque explicam o procedimento que teve Jesus e servem para nossa orientação.

    Em primeiro lugar, apesar de ser uma mulher de vida dissoluta, possuía um coração compassivo, sensível à miséria de seus semelhantes. Era de natureza fraca e impressionável, donde as suas quedas; porém, era a sua caridade tão grande, que jamais um infortúnio apelara em vão para a sua piedade, que jamais um desgraçado lhe batera a porta e não encontrasse a compaixão e o devotamento, levado este até à abnegação.
    Essa a razão por que Jesus pôde dizer ao fariseu, que na verdade, o convidara para a sua mesa com o intuito de descobrir nele algum ponto vulnerável, tanto que facilitara à pecadora entrar em sua casa: “Eis te declaro que muitos pecados lhe são perdoados, porque ela muito amou”. O amor de que Ele falava era o amor considerado do ponto de vista da caridade, do desprendimento, da piedade.

    Em segundo lugar, a fé que Jesus inspirou a Maria Madalena foi que lhe abriu os olhos para o próprio proceder e a levou a se arrepender profundamente. A comparação entre a vida sem mácula do Mestre e os inumeráveis excessos da sua vida de pecadora foi o que a impressionou e impeliu a vir, cheia de arrependimento sincero, rogar, em preces fervorosas, prostrada aos pés daquele a quem considerava um enviado celeste, o perdão de suas faltas. Jesus, que lhe lia no fundo da alma a disposição de não mais falir, de se regenerar, lhe concedeu a graça suplicada, graça cuja obtenção, aliás, está ao alcance de qualquer pecador, desde que vivo seja o seu remorso e verdadeiro o seu arrependimento, como os tinham aquela pecadora; porqüanto a graça não é o que a Igreja humana forjou. A graça, o mesmo que o perdão, tem por efeito abrir ao culpado as vias da reparação, que então lhe não é duramente imposta, como sucede nos casos de culpados endurecidos, mas facultada de maneira a ser feita com felicidade, com alegria, visando sempre o pecador efetuar o progresso que deixara de realizar e entrar de novo em graça perante o amor do Pai.

    Assim foi que o fariseu Simão, que pretendera armar a Jesus uma cilada, a fim de o apanhar em falta, lhe proporcionou ensejo para uma lição edificantíssima, adequada àquela época e ao futuro. Submissamente imploremos ao Espírito ora purificado Maria Madalena que por nós interceda junto ao Nosso Divino Mestre e Senhor, para que também saibamos arrepender-nos e merecer-lhe o perdão que nos salvará.

Referência:
Sayão, Antônio Luiz. Elucidações evangélicas. Capítulo 73.